

Vatenor, o eterno pintor dos cajus, explora um novo olhar nas telas que expôs em “Céu-Mar-Cajus”
A orla potiguar poderia ser evocada por seus coqueiros.
Mas Vatenor sabe que coqueiro aqui não havia antes da chegada dos portugueses. As praias sempre foram dos cajueiros. Elemento simbolo de nossa flora.
Identidade potiguar. Por isso o caju só poderia ser o tema.
A imagem poética se toma emprestado a Jorge Fernandes, poeta: “cajus todos virgulados de castanhas”.
E entre o céu e o mar, sob as dunas, a arte pictória de Vatenor e de seus cajus virgulados se lança à paisagens que traduzem a singeleza bucólica de nossas praias.
Céu-mar-Cajus
Sob a perspectiva do olhar do observador constroi-se o cenário de recortes da praia e do mar.
O expectador, nas dunas, vislumbra a praia através de prismas dos cajueiros.
O contemplador mergulhasse à vista na imensidão do mar azul que contrasta com a alvura da areia do pré-mar. Os títulos de suas telas são nomeações próprias do que representam: Cajueiro com dunas, O galho, Cajueiros nas dunas.
E lá estão eles, os cajuzeiros, imponentes ao centro da tela, divindindo a vegetação rasteira, rachando o mar ao meio, se impondo à cena; ou discretos, debruçando galhos verdes de folhas, e de tão verdes vivos; e de tão vivos, floridos, com cajus vermelhos e castanhas negras, escondendo um pouco do mar que se derrama e compõe um meio-casco de navio aparado pela areia que vibra amarela de sol.
Também estão os cajus sozinhos.
Como se aproximassemos a vista de um pequeno caju, ampliado com uma lupa, e o resultado é um close, iluminado pelas cores vivas das folhas de verde-vivo e de cajus amarelos e vermelhos.
Cajus e cajueiros que são de qualquer lugar, mas que também estão em cenários específicos como nas telas Praia de Santa Rita, Via Costeira com vista para o Morro do Careca e Praia dos Golfinhos (enseada de Pipa), com suas falésias. Tudo adornado por cajus e por cajueiros.
Cajus e cajueiros de uma arte singular
Cosmopolita, homem do mundo, Vatenor tinha por destino singrar os mares.
Se não foi como fusileiro naval, como se habilitou em 1970 mudando-se para o Rio de Janeiro, foi como artista (1974).
Na valise o que de mais representativo a sua terra pode lhe oferecer: cajus.
Vatenor (Natal, 1953) deixou Natal pelo Rio de Janeiro, o Rio de Janeiro por Nova Iorque (1986) – cidades por onde viveu e expôs os seus cajus. Alcançou também Paris(1988), onde expôs seus trabalhos na Galeria Debret.
Pelo caminho fez amizades, nas ruas e nos bares do Rio de Janeiro.
Em mais de duas décadas que por lá passou, conheceu e privou da companhia, dentre outras ilustres e não-ilustres, a do poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto, do desenhista Augusto Rodrigues e dos pintores Aluísio Carvão e Abelardo Zaluar; em Nova Iorque, entre outros, com o escultor americano Mel Eduard.
Mas voltou à sua Passárgada (1996), à Natal da sua infância e foi viver a sombra de um cajueiral e deliciar-se com cajus. Consta que comprou um sítio em Genipabu por que nele havia um cajual. Pois, se cidadão do mundo foi, em sua peregrinação acompanhou-se de seu mundo, o mundo dos cajus e cajueiros, elemento permamente de sua arte.
Mas os cajus não foram sempre os mesmos. Tomaram outros rumos com a evolução de seu trabalho artístico, até apresentarem-se com as singularidades que marcam as telas reunidas em Céu-Mar-Cajus. Singelas e de poucos elementos.
Céu azul
Se ontem o cajueiro e os cajus eram apenas um elemento a mais na tela, hoje são protagonistas.
Há um jogo de planos em que os cajueiros sempre se destacam na perspectiva do observador - estão primeiro plano –; enquanto a praia, o mar e o céu estão sempre ao fundo ampliando o cenário.
Os cajueiros aproximam; a paisagem, distancia.
O mar e o céu, a luminosidade com que se apresentam acusam que é sempre verão, tempo em que há a floração dos cajueiros, por isso há sempre flores e frutos em abundância em suas telas.
Do poeta Jorge Fernandes, em Verão: “Verão – dezembro de cajuadas”.
É quando se dá o espetáculo da floração que Vatenor registra. A pincelada é homogênea e o mar se encaixa à areia, e a areia se encaixa ao mar no mesmo traço contínuo com que o horizonte distancia e aproxima o mar do céu.
A ausência de banhistas, jangadas, pescadores, cristalizam e purificam a paisagem ressaltando a simplicidade da natureza na junção dos três espaços: terra, mar e céu.
A vida pulsa nas cores vibrantes em que predominam as primárias: amarelo, vermelho e azul. Outro verso de Jorge Fernandes, em Verão, seria apropriado: “os cajueiros gritam cheios de cajus vermelhos...”.
Vatenor é colorista, apesar da pouca variação das cores.
A cor é a vida em suas naturezas nada mortas.
Observou o jornalista pernambucano Mário Moura a força da arte de Vatenor e o aspecto de sua distinção: “o cajueiro permanece vivo e comunicante com as cores, as flores, as sombras. Até com aromas”.
A orla potiguar está portanto bem representada pelos seu elemento símbolo: os cajus de Vatenor, com o acréscimo da imagem poética: virgulados de castanhas.
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