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Paz de Chrystian

Abraço em Deus

04/02/2010 às 10h35


De férias do mundo, não deixei de sofrer.
Aliás, nas férias a gente sofre mais. Porque o ócio nos permite esse caminho. E quando a alegria se transforma em demasia, a gente se pergunta: e o outro? Por que, por exemplo, o outro não come tão bem quanto a gente, não festeja, como a gente, a boa vida?
Carmas?
Deus?
An?
E nós soubemos, já à noite, do caos que se instalou no Haiti... dormir pra quê naquele doze de janeiro?
Como?
As notícias eram truncadas – mas o suficientes para arrastarmos nosso coração numa dor sem volta. Ah, como rezamos, àquela noite!
Um país já tão castigado por tiranos latino americanos... tantos irresponsáveis no poder, por tantos anos... e o país chamado de “Pérola do Pacífico” se transformou num inferno. 
Em 1957 François Duvalier, o Papa-Doc, assumiu a presidência e implantou um regime de terror que durou até sua morte, em 1971. 
O terrorismo político continuou sob o comando de Jean Claude Duvalier, o Baby-Doc, filho de François Duvalier.
Já na década de 1980, com a crise econômica e o empobrecimento da população, o regime de terror perdeu força, até que, em 1985, Baby-Doc fugiu para um exílio na França. 
O país, então, estava morto, assassinado pela tirania irresponsável que corre as pobres Américas.
Entre 1985 e 1990, o Haiti procurou estabilizar sua situação política, mas uma sucessão de golpes militares impediu qualquer organização.
Pobre Haiti.
Pela manhã do dia 13, dona Zilda Arns virou outra dor em nossas vidas... ah, Deus, por que levá-la?
Mais de 200 mil mortos, diziam, já, àquela manhã, jornalistas da CNN... Estavam certos, os céticos. 
Eu, sem abrir sequer o computador desde o dia 27 de dezembro, dia 31 de janeiro abri, rapidinho. 
E encontrei um e-mail lindo enviado pela flor de gente Marília Bulhões, de Brasília.
Após a dor de oito dias preso sob o peso de mil escombros, sem luz, sem água, sem nada o que levar à boca, apenas Deus, eis que a vida grita. E essa cena, pelo resto de nossas vidas, vai gritar n’alma nossa.
Oito dias sem ver a sua mãe e sua família.
Olhos fundos pela desidratação, um sem fim de sofridão.
Não há lágrimas porque as crianças sempre guardam a esperança na vida, no colo, no abraço.
Não há dor porque a vida é ainda uma brincadeira para eles, diz o e-mail.
Por isso, quando se faz a luz, quando acaba o pesadelo.... sempre há um impressionante e caloroso sorriso.
De braços abertos para a vida e no aguardo do acalento da mãe, Kiki voltou para seguir a vida.
Uma pobre criança do Haiti, que, como todas as outras... come bolachas de barro. E sofre, e morre, e não.
É com o abraço dessa criança que eu abraço vocês... e canto que PAZ DE CHRYSTIAN voltou das férias.
Pelo menos PAZ...
Para você, para o mundo...
Nós descobrimos que Kiki, hoje, passa bem, Deixou o hospital de campanha ontem, três quilos mais gordinho...
Uma OnG norte-americana, a LIVE, sensibilizada, deu abrigo a ele, seus seis irmãos... e a pobre mãe, abandonada a sorte pelo marido dois anos atrás...
Hoje Kiki passa bem. Tem casa, comida, o aconchego e, num abraço lindo, os olhos de Deus.

Odeio sopa!

31/05/2011 às 00h25

Sou um poço de problemas para comer.
Nunca comi peixe, camarão, frutos dos mares todos.
De uns ano para cá deixei de comer carne e frango, só muito as vezes.
Por pena dos animais, desenvolvi essa dó em mim.
Raramente me jogo num Magret de Pato – principalmente quando estou, ai que metido, em Paris. E só.
Mas no geral, principalmente depois de conhecer a médica Lyz Helena e suas maravilhas boas de ouvir e viver... evito Lactose, Glúten e... minha vida é uma complicação à mesa.
Passo meses a fio sem – apesar, todos que me conhecem sabem, adorar chocolate, doces (de Anna & Claudia), uma Coca-Cola geladíssima.
Mas comer virou um tormento.
Que, pra falar a verdade, como tudo na minha vida, tiro de letra.
Ontem cheguei em casa um caco, depois de trabalhar muito, correr muito...
No fogão, uma sopinha me aguardava.
De feijão, com uns pães, sem Glúten, claro e um queijo Golden Dutch, que amo.
Quis ter raiva, de cara.
Sopa?!
Mas lembrei, de pronto, da fome do mundo.
E de quantas pessoas na vida adorariam estar ali, numa casa limpinha, no aconchego (mesmo que saudoso) de uma família da paz, do bem, FELIZ.
E pensei nas crianças famintas da África.
E na morte impiedosa dos miseráveis de Sarajevo, suas histórias órfãs, seu mundo inexistente.
Pensei na fome generalizada do Haiti, das crianças que comem barro e fel.
Pensei nos pobres do Brasil, alimentados por políticas sujas e surreais, assistencialistas, vergonhosas.
E minha cabeça deu um nó quando percorri tantos lugares dessa cidade onde a fome é uma constante, onde o povo vive a míngua, onde a vida pouco ri.
Foi, de verdade, muitos pesares àquela sopa.
De repente vi o prato cheio – eu, à mesa enquanto escutava Claude Debussy, músico e compositor francês e, como na vida tenho lá exageros, meu preferido.
Tanto que João Carlos Galvão, ao ler uma crônica aqui, me mandou de presente toda a sua coleção e, vez por outra ouço, a esmo.
Lembrei também da noite em que cheguei em casa muito cansado e fui às marquises das Lojas Maia, aqui perto do meu apartamento, doar um sem fim de coisas, penalizado com as famílias inteiras que dormem ali faça lua, chova cântaros.
Bipolar, passei a amar a sopa. E tomei com gosto.
E repeti.
É na dor alheia, que muitas vezes vemos nossa vida plena, boa, mansa.
É no não ter do outro que, tanto, tanto... vemos como somos felizes.
Passei a amar sopa.

Eu e a nostalgia

15/05/2011 às 20h18

Sou, sempre fui, um ancião.
Adoro a velhice, meus amigos seeeeempre foram mais velhos do que eu... respeito o que passou, sou, sei lá, afeito ao mofos – no melhor dos sentidos porque, sim, até do “mofo” tiro um sei o que de bom, nessa vida.
Desde que foi lançado, um ano atrás, o canal pago Viva, que pertence à Rede Globo de Televisão, tem sido um dos meus amuletos.
Rever, revisitar, “re”aplaudir e se “re”emocionar com o que a Globo fez nos últimos trinta anos, seja na dramaturgia, no jornalismo e... no Chacrinha, até, é a glória!
Hei de confessar que metade do que o Viva exibe, não vivi.
Mas que é bom viver, ah, isso é, mesmo sem ter conhecido, talvez ouvido falar.
Ontem assisti ao Programa Cassino do Chacrinha, exibido em 1987, no Natal daquele ano.
Um caos – e por isso mesmo, o máximo.
De Marquinhos Moura, com uma roupa podre de cafona cantando “Meu Mel” aos Titãs, que encerraram o programa cantando “Bichos escrotos vão... se fudê!”, o programa tinha de um tudo.
Um escorrego no meio do palco, as deliciosas Chacretes, musas de muitos jovens da minha idade, à época de algumas proibições, ainda assim.
De Marina Lima, festejada já como musa carioca, à época cantando “Essa noite eu quero te ter, toda se ardendo só pra mim...”, a Wando, que de tão repetitivo, sexi sem nunca ter sido, com aquela boca de Angelina Jolie e caras e bocas que, depois de um tempo, cansaram.
Revisitar épocas das nossas vidas é, sim, uma maravilha.
E rever o Chacrinha é o máximo.
Seu Cassino era uma zona maravilhosa.
Gente passando em frente das câmeras, “Quem quer o pepino do Tarcísio Meira?”, gritava, impávido. Ou... “Quem chupa mais, o homem ou a mulher?” e soltava pirulitos com ares fálicos para a plateia. Que era show a parte.
Gente feia e adorável.
Ampuletas, batons gritantes, gritos, danças descompassadas e... dane-se!
Apesar do “Quem chupa mais...”, vivíamos anos mais inocentes.
Ou, talvez, mais irresponsáveis.
Mas era mais tranquilo, menos preocupante e, do talo bullyng, ninguém nem ouvia falar.
Éramos mais felizes, à época do Chacrinha.
Num país onde se falava o que dava na telha e a telha nunca feria tanto assim alguém.
País louco por liberdade, recém saído da ditadura militar, queria mais era ser feliz.
E era.
Aliás, bem mais do que hoje.

A perder de vista

11/05/2011 às 00h15

Ela chega e... SURPRESA!!!

An???!!!

Chorar de felicidade faz um bem danado

Deda não aguenta. E desmorona. Nós também

Todos os vivas da sua família

Não existe preço para uma cena dessas

Nós três juntos: sorte de todos os lados de Deus

Dadá com Valentina: grude

Com Crédio e sua festa: todo carinho do mundo

Com nosso amor Vânia Leite

Com a amada Jimena Vasconcelos

Com minha mãe: amor de uma, bem querer da outra

Com Zélia Pinheiro: Saboya de coração

Eu, Raissa, mulher de Breno e Breno: outro anjo

A família, adorável, da Deda: felicidade é isso

O Bolo Tereza Neumann: obra de arte para nossa Edna

Doces Anna e Claudia, outras estrelas da noite

As maravilhas de Anna e Claudia: todo afeto do mundo

Quando estudei no Tablado, no meu Rio de Janeiro, tive um professor, adorável, que ditou, mesmo sem saber, muitos conceitos, seguidos até hoje, para minha história.
Damião, que na verdade se chamava Carlos Wilson, certa feita me disse, olhos nos olhos que... “A vida de cada pessoa dá, sempre, uma inda história de amor”.
Guardei aquela frase e, desde sempre, a vejo escrita por sobre minha vida.
Semana passada eu e Keity, meu amor na alegria e na cumplicidade, decidimos fazer uma festinha, de aniversário, para Edna.
Babá da nossa filha quando Gerlane está de folga e minha babá nas horas vagas, Edna é uma dessas pessoas que, ao encontrarmos pela vida, agradecemos a Deus.
Pura desde a alma, sofrida desde sempre, Edna nasceu numa casa de taipa, sofreu anos da sua história, foi levada, escondida da sua mãe, por uma família para bem longe... não viu os irmãos crescerem, não viu a mãe morrer.
Reencontrou os seus familiares dez anos depois, numa dessas histórias que, apesar da carga dramática e quase novelesca, existem, emocionam e arrebentam nossos corações.
Foi pelas mãos de Vânia Leite, amor da minha família desde tio Almir de Almeida Castro, filho de tio Almir e tia Maury de Saboya, que Edna chegou à nossa casa.
De cara, simpatia mútua.
E, com Valentina, a descoberta de outro amor.
Tenho todas as sortes do mundo.
Deus é meu desde o meu nascimento, passando pelo meu nariz, minha mulher, minha filha, os dons todos, bem meus.
Até aqueles que trabalham conosco, na nossa casa, são presente de Deus.
Edna é.
Essa semana articulei tudo.
Liguei para sua família, no Góes e para seu noivo, Crésio, que também mora na comunidade distante quase 150 quilômetros do Natal.
Combinamos tudo, ensaiamos telefonemas, “perdi” o celular dela, para evitar que alguém ligasse e, ops!, dissesse alguma coisa e... fui cuidar da festa.
Hoje Edna passou o dia com minha mãe que, declaradamente, é apaixonada por ela.
Edna, claro, não desconfiou de nada. Juntas, minha mãe, Edna e Valentina passaram o dia e a tarde juntas, no apartamento de Mary de Saboya, brincando de felicidade sob os céus de Petrópolis.
Fada minha, Rogéria Costa mandou umas maravilhas – maravilhas mesmo. E meu amor Tereza Neumann fez o bolo, Anna & Claudia, dois grandes amores também, os docinhos, Daniela Maranhão as lembracinhas, Nilton Júnior fez os arranjos, antes de viajar para o Recife... Alex Costa, amigo querido, chegou para fotografar e... a festa estava completa.
Marquei com todo mundo, amigos da nossa mais profunda intimidade, no nosso apartamento, às 18h.
Às oito Edna, Valentina e minha mãe chegaram.
Sua família, que no final da tarde mandei buscar toda no Góes, estava, já, em nosso apartamento. Claro, o noivo Crésio veio junto.
Suas irmãs, suas sobrinhas. Todo mundo, na nossa sala, a...
Cantar parabéns pra Edna que, franzina, pequenina e com um passado tristinho, é um ser imenso, de luz, uma alma, boníssima, que tanto o mundo precisa.
Arrumei a festa como se fosse um casamento, um noivado, sei lá.
Bolo, doces e carinhos.
E Edna chegou.
Claro, um susto. Chorou muito, nos agradeceu demais, nos abraçou outro tanto.
Ter sua família em nossa casa foi, também, outro presente de Deus.
Um momento único em nossas vidas.
De muita emoção, de fraternidade e coisas que a gente sabe, de coração, viver.

Em paz

17/04/2011 às 21h39

Meus amigos dizem que deveria andar de joelhos, pela vida. Yara Menezes Chaves adora me dizer isso.
Kadu Yotchiba, que estudou comigo no Rio e hoje mora em Sampa, ontem me fez rir, ao telefone, dizendo que não nasci de quina para a lua.
Que a Lua, vê que lindo, nasceu em mim.
Vânia Leite ontem, num repente, escreveu... “Viver próximo a você é uma constatação:
PERFEIÇÂO EXISTE!”.
Naturalmente que me achei. Mais – porque me achar é, ai, ai, uma constante.
Modéstia? Nenhuma. Aliás, kkkkkkkkkkk, tenho oooooooooooooooooido de gente modesta!
O dia hoje foi... o máximo.
Apesar da saudade que dói, da vontade de correr por aí, os desejos que sobem paredes, já que amores, por ora, são impossíveis.
Apesar da chuva, que adora melancolizar a vida.
Ando em paz – aliás... sempre andei. Mas ando mais em paz. Ficando velho, né?, deve ser.
Mas os devaneios vão além.
A maturidade vai me desenhando outro homem. Vou me redesenhando, me refazendo melhor.
E isso, essa constatação, por si só já acalma, ameniza, tranquiliza a alma para esse sem fim de dor e atropelos em que o mundo vai se transformando.
Vou fazendo da caridade, a cada dia que passa, um lema ainda mais forte – isso é, certamente que sim, minha maior paz. É quando melhor sinto Deus dentro de mim.
Não sou melhor do que ninguém – aliás, nem teria como. E não quero.
Não sou agradável em demasia, sou sincero em demasia, não falo com quem não quero, não leio o que não quero, só sento à mesa com quem eu quero, só olho para onde quero, só tenho amizade com quem quero.
Sou pedante, metido, autoritário – e não acredito que nada disso seja um demérito, ainda assim.
Mas com tantos defeitos... sou bom.
Não fico pelos cantos a falar de ninguém – e desafio quem, um dia, me viu em rodas denegrindo outros.
Não perco tempo com vidas alheias – ora bolas, nem a minha eu ando dando conta.
Se tenho vontade, grito.
Não suporto quem conversa sem olhar nos meus olhos – mesmo que eles, meus olhos, perfurem almas, gosto de agregar, de rezar, de tomar banho.
Adoro reunir amigos a minha volta, na minha casa, telefonar para o Rio, para Cuenca, para NY – azar da conta.
Não faço gêneros, não faço pose, não finjo.
Gosto de viver, de ler, de Lavanda Johnson, de ir ao Centro de Caridade São Francisco de Assis, de Insensato Coração e de música de boa qualidade.
Leio Machado de Assis vez por outra, adoro declamar Rimbaud, Florbela, Cora Coralina e, para ser comum, Gregório de Matos.
Gosto de Debussy, de Chopin, de Van Gogh - e adoro Amsterdam, Machu Picchu, Paris ao cair da tarde, Disneylandia.
Adoro mandar flores, fazer festa, escrever sobre o amor.
Acho que está explicado, então, porque danado ando tão em paz, tão bem, tão feliz.

Os paradoxos da minha saudade

06/04/2011 às 23h46

O primeiro dia no colégio Luz: minha filha não estudaria noutra escola, noutro nome

Cadê Valentina? Entre panelas, rindo da falta de criatividade de quem procurava atrás da porta

As voltas por Cuenca: óculos para levar o pai no coração

Ando mais bipolar do que nunca.
Ora trabalhando muito – o sucesso dos meus eventos e a ferveção que é esse Portal, têm feito eu trabalhar, sei lá, dezesseis horas por dia, num pique que só Deus entende, porque eu cansei de tentar me entender – e saber de onde tiro forças para tal.
E ora... chorando de saudade.
Como na vida real eu sou um ator, choro sem piedade, com todos os exageros que, à época de Maria Clara Machado, no Tablado do meu Rio de Janeiro, não poderia jamais exercê-los.
As últimas fotos da minha Valentina, doeram n’alma.
E minh’alma, esperando por mim, caiu em prantos.
Ah, adoro chorar.
E choro mesmo, azar de quem aprendeu o contrário.
Choro com quem passa, com um abraço, choro para Andrea Lira e Halissa Simplício, choro para Dona Vera Lucena, choro para Sandra Elali, choro para Vânia Leite, para Rogéria Costa, para Marília Borges, para meu irmão Marcelo Duarte, para Leonardo Fialho e até para Tico Andrada – amigo carioca que adora me chamar de “rio de emoção”.
Mas o primeiro dia no colégio Luz, em Cuenca, na Espanha, de Valentina, me fez ir as lágrimas...
Estar longe desses momentos, acredite, é atormentador.
Um pique-esconde desconcertante, quando Keity a encontrou no guarda panelas do nosso apartamento de Cuenca...
Uma voltinha de carro, com o óculos que “Paê” deu no verão – e que desde então ela não tira dos olhos.
Não é fácil viver assim, entre saudades arrebatadoras e vontades as vezes secretas, de tocar num amor tão longe e tão perto de mim.
O Skipe virou meu caminho preferido, o telefone minha válvula de escape.
Logo eu, que nunca me acostumei a viver sem Keity – e não quero nunca que sim, vivo meio sem chão, como se estivesse aprendendo a andar, um sei lá, na garganta um nó.
Não sei o número das minhas senhas do banco, nem que cartões usar, onde comprar um pneu novo, como é que faz a feira.
Fora que, sem Keity, desaprendi a amar.
Como se apenas para ela, com quem convivo felicíssimo faz 20 anos, corresse meu mar.
E a vida achou pouco, Valentina estudando na Europa – claro, numa decisão mútua.
A pequena, que parece ter vivido ali, se sente em casa.
Anda pelas ruas do Século VI como se integrada fosse à paisagem há vidas.
A neve? E daí? Se pintar, ela adora.
E Cuenca, bipolar como eu, oscila sua temperatura em vinte graus, em apenas 24 horas. É incrível – e linda, nossa Cuenca!
Valentina parece ter nascido lá. Na Escola, um lugar lindo e mágico na encosta da cidade, reina absoluta. Ri, brinca, corre – parece ter quatro anos, à altura das suas meninas.
E chega em casa e dorme.
E sonha.
E ri – ela adora rir entre carneirinhos e travesseiros de penas de ganso.
E acorda.
E começa tudo de novo.
Saudades do pai, ao telefone.
A voz treme, uma vontade de falar em amor sem que o amor, na sua fala, se expresse tanto.
E se o perigo ronda, um bicho estranho que aparece...
Paêêêêêê...
Juro, nunca ensinei, mas devo trazer das minhas carioquices, as linguagem que a vida me impôs como herança.
Tudo isso dói. É uma saudade boa, mas incomoda.
Perco prumos e rumos.
Como se perdido, de verdade, estivesse.
Mas o amor pode tudo.
Redimensiona o tempo, o espaço e nos faz uma pessoa.
É isso que me move.
Amor ao trabalho, à vida, às minhas duas mulheres e a saudade que, impiedosamente, faz meu coração... 
...sangrar.

Julgar: quem é você para tal?

30/03/2011 às 17h39

Um sentimento tem me perturbado, esses dias.
Fico aqui pensando, na solidão do meu sofrimento, com vontade de escrever, conversar com o caos.
Pessoas distantes, mas que servem como cenário para expor o pior do ser humano.
Sobre a separação dos atores Danielle Winits e Jonatas Faro.
É, digam uns, que o amor começou errado – se é que era amor, se é que eu saiba o que é um erro.
E... quem sou eu para dizer o que é correto ou não, mundão esse de meu Deus?
Bem feito!, dizem tantos, lembrando talvez da separação conturbada da atriz com o também ator Cássio Reis para, dias depois aparecerem rumores do seu afair com Faro.
Aos 37 anos, Danielle Winits está nas principais capas de sites e revistas do país – tanta gente denegrindo, outro tanto ecoando o tal... “bem feito”.
Não gosto de dizer “bem feito”!
É agressivo, desnecessário, um acinte!
E como acredito que tudo volta: nossas ânsias, desejos e vontades e espalmadas no outro... não gosto desse caminho: “bem feito!”
Como não está se sentindo Danielle Winits?
Grávida, aos 8 meses de uma gestação exposta, frágil e agora, mãe de uma criança “sem” pai.
Na vida, dizem os sábios, temos sempre que nos colocarmos no lugar do outro.
Do que é apedrejado, dos humilhados, dos expostos a todo timo de comentário infame.
Isso dói uma dor d’alma, fere, deprime e mata, aos pouquinhos.
Não nos cabe julgar ninguém – é nosso papel no mundo não.
Apedrejar pra quê?
E como assim, “bem feito”?
Acreditem: Deus ouve tudo!!!
Danielle tem talento. É, sem favores ou pinceladas, uma das maiores atrizes de sua geração – e isso deveria nos bastar.
Sua vida, a ela interessa e tão somente.
Segundo a classe artística canta, Winits é, ainda, ser agradabilíssimo, sem contar sua inteligência... caminhos raros de encontrarmos num mundo, tantas vezes, tão frugal.
Que essa criança venha em paz.
E que Danielle Winits, que merece todo nosso respeito, abrace a candura de ser mãe para, em um mês, quando a criança nascer... ser a mulher mais feliz do mundo.

Crônica dedicada a Cibele Guedes.
Foi minha amiga , de tantos anos, quem me abriu corações olhos para o absurdo de uns, no mundo, para com Danielle Winits.
Cibele é gente.
Tem alma, coração e está eternamente grávida de amor.

Das tripas coração

16/03/2011 às 22h00

Não tem sido fácil viver.
E de limão em limão, uma limonada.
De sofridão em sofridão, no trabalho a cara enterrada.
É, quem me conhece sabe: sou mesmo um exagero de sentimentos.
Se uma topada “me abate” (como se alguma coisa me abatesse nessa vida), penso em cirurgia.
Se meu coração por amor dispara, o escuto como a bateria da Mangueira.
Sou de extremos.
Mas ando triste, com uma saudade dessas avassaladoras, impiedosas, sem norte.
Keity e Valentina longe, me pego, tantas vezes do dia, com olhar de absolutamente nada.
Interessante, a saudade.
É pura melancolia.
Da dor de cabeça, tontura e azia.
A saudade arde feito fome.
E engole, bofeteia, derruba as rumas.
Saudade sangra desde dentro.
Aflora, unguento.
É uma tristeza boa de sentir, mesmo assim. 
Serei bipolar?
Quem sabe...
É bom e triste ao mesmo tempo... ah, é!
Keity, amor da minha vida, uma vitoriosa do mundo, sumidade no seu ofício, está, desde antes de ontem, morando em Cuenca, na Espanha, fazendo pesquisa para seu doutorado em ciências criminais.
Tão doce, tão linda, tão minha – e gostar disso?! Gosta e sabe, entende, corre atrás, estuda, surpreende, vence.
E Valentina foi também.
Depois de tanto tempo morando comigo, foi beijar mamainha, acarinhar mamainha, que precisa, oh! sim, de todo amor.
Ficamos eu, Terezinha e Maria do Socorro, Edna, Nina, Breno – e uma saudade que, não queiram sentir. 
Nem saber de.
Sei das saudades outras, das que morrem e que matam – e percebo, a cada perda de quem admiro, quando Deus leva consigo, quão fortes temos que ser para vivermos.
Tenho rezado muito, todos os dias, o tempo todo.
Vão para o Japão e a Líbia, seus povos perdidos no meio do caos, minhas preces desgovernadas.
Aí lembro da minha família e, ao invés de pedir, agradeço.
Tem sido difícil, mas é compensador.
Saber que minha mulher, que saiu do Colégio Diocesano de Santa Luzia, em Mossoró, é, já, uma profissional respeitada por entre as rochas da cidade de Cuenca, linda, Patrimônio Cultural da Humanidade, orgulha, emociona.
E agradeço a Deus, por tanta dor.
Porque, acreditem, só quem ama sente isso.
Esse rasgo por dentro, esse trago de sofrimento e essa imensa alegria de ter encontrado, nessa vida, até na tristeza, os verdadeiros caminhos do coração.
Só quem ama, muito, sabe disso.

Vaga-lume

14/03/2011 às 01h03

Eu não sabia o que fazer
Tirei toda a roupa pra te enfeitar
Mais tarde ia até dizer
Que tudo na vida, faço sem pensar
Sou homem, você mulher
O tipo de macho que quando ama
É só amar

Minha cabeça não é mesmo muito certa
Corre feito a lua
Nua
Absoluta
E inquieta
Ao seu lado eu tiro a roupa e viro poeta
E me dispo de todos os medos
Das ranhuras
E dos segredos...
Trazidos atrás da cueca

Pegando fogo

14/03/2011 às 00h57

Me pega
Não nega
Se esfrega, se esfrega
Se larga
Se deixa
Se faz de heroína
Vira gueixa
Não queixa, menina
Que eu te tomo pra dança
Me lança
Minha lança
Perfumes, lança
Me faz uma trança
Requebra
Se quebra
Se entrega
Se faz de fingida
Multicolorida
Fugida
E me alvoroça
Se enrosca
Me troça
Nunca me troca
Me enrosca
E me joga na lama
Carrega pra cama
Me estraçalha
Me espalha
Que eu não ligo pra nada
Tarada
Bruxa safada
Caldeirão
Arranca à navalha meu vagabundo coração
E me deixa a água e a pão...
Se faz de sim
Se faz de não
Me atiça
Enfeitiça
Me risca
Se faz razão
E aflora
Me morde de tesão
Se faz única emoção
Morde meu calção
Frita
Cozinha
Banho-Maria quero não
Me inebria, meu amor
Me inebria
Arrepia a nuca
Aiiiiiiiiiiiiiiii
Me atenta
Aguenta
Pastilhas Garoto
Menta
Minta
Sinta
E me faz girar
Levitar
Me gira na roda
Me joga no fogo
Me queima as entranhas
Me assanha
Me assanha
Ai, ai...
E começa tudo de novo...
 
Chrystian de Saboya

Uma linda história de reencontro, saudade e amor

28/02/2011 às 01h37

A notícia me chamou a atenção no fim de semana.
Histórias de amor sempre mexem com meu vagabundo coração.
Sobre pai e fila, as novas tecnologias e o tal amor eterno.
Em Nova York, um morador de rua encontrou-se com sua filha depois de 11 anos separados, vê que bacana: graças ao Twitter.
Daniel Morales, um senhor de aparência triste e oca, de olhar sem direção e pés fincados no nada, de 58 anos de idade, foi um dos escolhidos para integrar o projeto Underheard In New York, iniciativa de três jovens norte-americanos, participantes do programa de estágio do banco BBH, que distribuiu telefones celulares a quatro moradores de rua.
Deus escrevendo certo por linhas tortas e... um dos quatro telefones foi parar justamente nas mãos de Daniel, já que um dos estagiários, compadecido com sua imagem de calvário, o via todos os dias, perambulando nas ruas, da janela do seu escritório.
A ideia era fazer com eles contassem fatos do dia a dia utilizando o Twitter.
Daniel, o pai, foi além.
Ao perceber o potencial que a rede de microblog tem, o morador de rua, olhos firmes de esperança, começou a postar mensagens a respeito de sua filha, Sarah Rivera, de 27 anos, perdida no vazio do mundo.
Os dois perderam o contato quando Sarah, na época com 16 anos, imigrou de Porto Rico para os Estados Unidos com sua mãe.
E nunca mais se viram...
Mas o morador de rua publicou um tuíte com o número de telefone que estava usando no projeto, o nome completo da filha e uma foto dela aos 16 anos.
Um desconhecido viu a mensagem e a retransmitiu para Sarah no Facebook.
Ela entrou em contato com o pai imediatamente.
Se por um lado mata-se, denigre-se, inventa-se, maltrata-se seres humanos com as redes sociais e as novas tecnologias... por outro, super importante – e ainda mais visceral, se prolifera o amor.
Quem acha esse caminho, em tudo na vida, é feliz de verdade.

Como ser feliz assim?

24/02/2011 às 00h37

Voltava da festa que comemorou, ontem à noite, o aniversário de Vânia de Holanda Leite, ser de luz, especial, amor da minha vida.
Na Prudente, feliz da vida, uma cena me chocou, entristeceu a alma, sempre disposta a certos bucolismos.
Sob as marquises das Lojas Maia e de mais uma ou duas lojas que ali estão, ancoradas num dos nobilíssimos baiiros dessa cidade, o Tirol/Barro Vermelho, pelo menos trinta pessoas dormiam, já que sonhar, para eles, não é tarefa tão simples, tão fácil assim, tão palpável assim.
Doeu uma dor de “desimportância” diante do ser humano, da vida ao risco do mundo, ao léu, ar rarefeito, sem jeito, vida sob ramos de papel.
Reparei num casal, que ainda se espremia entre molambos e papelões, folhas de jornal de dias atrás.
Ela, grávida, era acarinhada pelo marido, barrigão, sonho cadê?
Os dois se viravam, voltavam a se virar.
Dei a volta no carro pela Régulo Tinoco e, devagarzinho, pus-me a olhar, a sofrer junto, a perder o sono junto.
No momento em que mais precisa de colo, grávida, uma mulher ali, como se nada fosse.
E nada são, a bem da verdade, nesse país de injustiças e gente, e lixo – e as duas coisas assim, juntas.
Noutra ponta da mãe marquise, aquilo que imagina ser... uma família. Pai, mãe e três filhos pequenos unidos por um velho lençol puído, azul sem cor, cheiros do fim.
Como doeu, ver aquilo tudo ali.
Velhinhos, até um vira-latas lindo, pretinho, ali guardião do dono, um nada.
Doeu a dor do Brasil, dos miseráveis que vivem à míngua quando o poder público nada faz – e se faz, é complacente com interesses outros, escusos, importante para seus umbigos, apenas. Doeu a dor do mundo, daqueles que nada têm, dos mendigos, dos sentidos, dos ditos à margem da vida.
Aquelas pessoas, num contraste com a Lua Minguante que se desenhava nos céus da cidade, veem suas vidas se indo.
Diante dos nossos olhos – muitas vezes sem enxergar o que Deus, tão cúmplice dessa gente, nos mostra.

Morrer faz bem

10/02/2011 às 18h17

O continuar da vida tem lá seus preços.
Muitas vezes, muito caro, não tão raro de doer, do corroer, de amargar por dentro.
Eu, muito jovem (falo como se tivesse mil anos), decidi o inverso.
E sofrer, se para muitos é um caminho, em mim não bate, não chega e é impressionante como, num estalar de dedos eu esqueço tudo, refaço tudo – e me reinvento.
Não lembro, nunca nessa vida, de uma dor ter me afligido mais do que meia hora.
Se me questionares sobre a morte... tenho uma relação de amor, com ela.
A respeito, mas não me amedronta.
Chorar?
Gritar?
Espernear-me?
Nunca!
Entendo tudo – ou quase, vá lá – que Deus insiste em fazer. Isso já é meio caminho andado.
Aí, reticente, resignado, como Cintya Delfino adora me chamar, vou vivendo. Ou, como Léo Fialho, amigo carioca adora dizer, vou voando...
E vivendo em paz comigo, com o mundo e até... com o além.
O espiritismo me deu esse norte: sofrer, nunca!
O outro lado, que parte, e vai para “sempre”, não quer choro, não espera chamas de velas. Quer preces e sentir, de onde estiver, nosso coração em paz.
Choros, nunca!
E se eu choro...
Choro por outros motivos.
A injustiça social, por exemplo, que jamais vai ver-me tranquilo diante... da fome.
Ou de gentes e bichos sem donos, ao relento do mundo.
As guerras me fazem chorar.
A ditadura me faz chorar.
Mas a morte, nunca.
Morrer é, como o nascer, um presente de Deus. E Deus, sempre, sabe o que faz.
Sempre.

O ser desinteressante

09/02/2011 às 01h23

Ando pensando muito nesse assunto, de uns dias para cá.
O que faz a gente não ter interesse numa pessoa?
O caráter, o comportamento, a conversa – ou a falta de?
O ser nasce ou se torna desinteressante?
Fosse Francisca Imperial de Melo Franco, uma professora de Literatura que tive no Colégio de Belas Artes, no meu Rio de Janeiro, me repreenderia de feito.
- Ninguém, Chrystian, é tão desinteressante que não mereça um bom dia!
Falou-me certa feita, sobre a preguiça que sempre tive – àquela época ainda mais – das pessoas de inteligência rala.
Nunca esqueci dessa frase, da sua bronca, num canto da sala que ficava no terceiro andar do imponente prédio no Centro do Rio.
E de uns dias para cá, observando as pessoas que passam – os desinteressantes sempre passam, nunca ficam – penso eu com meus borbotões, seriamente no que, realmente, significa uma pessoa desinteressante.
Gente de cara feia, pelos cantos, olhar sorrateiro e braços cruzados... é desinteressante.
Aliás, gente desinteressante adora cruzar os braços, num sinal nítido de que não voa.
Gente fofoqueira, vida alheia como lema... é desinteressante.
Quer gente mais desinteressante do que a ingrata?
E gente sem consideração?
E aquelas pessoas que ranço, que adoram remoer, que não vivem sem o tal rancor?
E gente que morde, que ladra? É desinteressante também!
Gente que fala besteiras do tipo... “Meu vestido custou tanto...”
Quem fala “molha”, no lugar de “molho” é desinteressante, está decido!
Quem fala sem olhar nos olhos, é desinteressante.
Quem deve.
Quem mente. 
Quem não cheira.
Quem não se arruma.
Quem não se apruma.
Quem anda de ruma.
Quem não reage.
Quem dorme muito e sonha pouco.
Quem não acorda pra vida.
Quem remói dores e feridas.
Quem não tem convicções.
E quem as tem com exagero.
Os céticos são desinteressantes.
Os burros são desinteressantes.
Os fanáticos.
Os lunáticos.
Os apáticos.
São desinteressantes as normas, as formas, as maiorias.
O preconceito é desinteressante.
A fome.,.. ah, quão desinteressante é!
Desinteressante é gente sem viço.
É vida sem história para contar.
O insosso é desinteressante.
Doce demais também; salgadíssimo alem de desinteressante faz mal ao coração.
Ah, as pessoas sem coração, são desinteressantes.
E as que não são solidárias são também.
Os mau humorados são desinteressantérrimos.
Os eruditos demais; os populares demais: super desinteressantes!
Mas no fundo, o mais importante... é ser feliz. Prestem atenção: todas as pessoas felizes são extremamente interessantes.

E mais um verão se foi...

07/02/2011 às 07h02

Se tem uma época do ano que adoro viver, é o verão.
A bem da verdade eu curto dos os dias – abusado ou não.
Mas é no verão onde, literalmente, tiro a roupa. E passo, crente que sou bem feito, o dia inteiro de sunga. E se der na telha, saio da praia depois do sol – heranças cariocas, das épocas que trago, com certo saudosismo, da Barraca do Pepê, na Barra, das farras intermináveis em Ipanema, ou do mar tranquilo do Leme... tudo no meu eterno Rio de Janeiro.
Dou um mergulho, volto para fazer nada e, quando o sol permite, uns espumantes à beira mar, minhas espreguiçadeiras e amigos ao redor. Sempre amigos ao redor numa casa que sou, no sentido literal da palavra, apaixonado.
No Tibau isso ganhou até nome “Espumantes ao mar”. Tem quem ache um abuso, mas quem disse que me incomodo?
É que na vida real, eu também sou um exagero.
E curto aquele climão de fazer nada, pernas pro ar, hora para coisa alguma e... muitos jantares na nossa Casa das Ondas, muitas festas até sabe Deus que horas.
E, vê que incrível, sem nunca ficar de porre, sempre com meu espumantezinho e um suco de laranja...
Assim passei os últimos 50 dias da minha vida que, costumo dizer por aí, é a melhor vida do mundo.
Não sou rico, apesar do nariz e da pose, como arroz com feijão todos os dias... mas trabalho tanto, tanto, tanto de segunda a segunda, que aos janeiros ser feliz no Tibau é um presente que me dou.
Esse ano não foi diferente. E quero a vida sempre assim...
Acredito que faço por onde, ter essa felicidade toda.
Até para ser feliz é preciso talento.
E para esse feito, talento eu tenho.
Não nasci para me deprimir, não nasci para fazer mal as pessoas, nem ficar pelos cantos, ora rezando, ora com malfazejos, de caras feias pelos cantos e de comentários torpes sobre fulanos.
Nasci para rir, tomar banho de mar, reunir pessoas e bem quereres a volta.
Nasci para escrever coisas boas.
E para gritar com o mundo, vez por outra.
Nasci para fazer amigos e guardar segredos.
Nasci para Keity e com ela vou morrer.
Nasci para ter muitos filhos – por hora duas cachorras lindas, uma filha iluminada e outros tantos, que Deus coloca à minha porta.
Nasci para fazer festas, fazer as pessoas felizes, juntar coro de viva a solidariedade.
Mais tolerante, já sou.
Paciência ainda me falta.
Mas nasci para ser verdadeiro; isso já coooooonta que é uma beleza.
Tenho como lema a solidariedade, o abraço naqueles que mais carentes são e a certeza de que Deus tudo vê, tudo lê, tudo ouve.
Nasci para ser feliz, é o que vale e canta com mais veemência dentro d’alma.

Eu te amo

27/12/2010 às 20h38

NOSSO ADEUS PARA NOILDE RAMALHO
Uma dor daquelas sem freio, como se o oco do mundo coubesse inteiro, impiedoso coração da gente, nos invadiu a alma.
Ontem, Dona Noilde se indo, a Catedral cheia de gente, apesar de tão vazia, nos tocou fundo.
Tão intensamente que as vezes procurei, em vão, um chão qualquer.
Encontramos Natal inteira lá, olhos nos céus, um silêncio sepulcral, sem flores, tantas dores, outros amores lá. Como queria a mulher que mudou a nau da sempre tão fraca educação no Estado do Rio Grande do Norte.
Encontrar as meninas todas lá, da eterna ED de Dona Noilde, foi um alento, por certos momentos – mas de volta à vida, a cena de vê-las lá doeu. Muito.
Todos estavam na Catedral; ricos e não.
Estavam jovens e velhinhos.
E gordos e magros.
Credos ou céticos.
Apaixonados viscerais, os que não entendiam tão bem o que a morte, outro norte, significa.
Velas, num cantinho, acendiam outras esperanças. Esperançosos estavam lá.
Pretos e brancos, cores e prantos – todos os caminhos nos levaram a Noilde Pessoa Ramalho, ontem, outro adeus.
Quando entrei capenga, sem forças e com um nó tão intenso na garganta, ouvi uma senhora dizer.
- Ela tinha 90 anos; mas não queríamos, nunca, nos despedir dela.
Outra, já no meio da Catedral, onde rezei por tempos sem fim, ouvi outra senhora, com uma camiseta branca da Escola Doméstica...
- Dona Noilde leva consigo muito do que significava alegria para mim.
Ecos outros na Catedral, silenciosa, pequenina para tanto amor.
Doeu muito, na noite de Natal, se despedir dessa que é, assim no presente sim, uma das heroínas desse Estado.
Mas Dona Noide está bem, certamente que sim.
E está linda, onde estiver.
E rindo para o mundo dos anjos, esse sim... sem fim.
Está já programando viagens pelo mundo.
E idealizando outros caminhos para educação.
E vai, sim, comprar uma roupa nova para minha próxima festa – que nunca perdeu, estivesse onde tal.
E vai chegar com Graciema Carneiro, eterna anja, eterna sua.
Vai rir sem pudor, abraçar com amor e pedir paz no mundo, tolerância no mundo.
Dona Noilde deixa, sim, sem graça nosso final de ano, 2010 que chora.
Em compensação os céus estão em festa.
Fogos, artifícios, paixões.
E nossa Rainha (assim eu e Graciema a chamávamos), a fazer sua diferença, vê que lindo... até ao lado de Deus.

3333

26/11/2010 às 20h45

Mesmo meio assim – a voz continua embargada e uma dor insiste, em vão, em me tirar do prumo, saí às ruas agora, final da tarde.
E dirigindo, o que não suporto fazer...
Motorista de folga, a vida precisando girar e, dentro do carro, me lembrei de uma história.
Namorava Renata Zarbonni, uma carioca de cabelos cacheados, suuuuuuuuper do bem, que morava na Rua Lineu de Paula Machado, entre a Lagoa Rodrigo de Freitas e o Jardim Botânico, ali aos pés do Teatro Tablado. A conheci, inclusive, deixando uma aula da minha eterna mestra Maria Clara Machado, na Pracinha em frente ao TT.
Certa vez íamos para casa de Lulu Santos, não me lembro bem o nome... mas uma filha do cantor com Scarlet Moon, era amiga da Rê.
Ao atravessarmos a rua, num sinal de trânsito qualquer, coisa de onze da noite, (esses sonhos eram possíveis no meu Rio de Janeiro) um casal passou num carro lindo, alto, prata. Um homem guiando, uma mulher cantando e Deus ali, eu vi!
Eles dançavam muito, som nas alturas, vidros fechados.
Cheguei a comentar com Renata e jurei, naquele instante para mim, que um dia teria um carro igual ao dele. E cantaria feito um louco dentro do meu carro.
Isso já faz, sei lá, uns vinte anos.
Mas a cena marcou tanto, que nunca esqueci.
Tanto que hoje, a caminho da Jocil, da Arban e da Richards do Alamanda Mall, três lugares que adoro estar, lembrei novamente.
Estava, eu dirigindo meu carro, som nas alturas, cantando muito.
Escutava Lulu Santos. Todas dele, num CD que adoro ouvir.
Antes de decidir trocar o Rio de Janeiro por Mossoró, sonho que sempre carreguei desde moleque e que se tornou realidade apenas por causa da Keity, fui a Mamão com Açúcar, uma boite linda de Ricardo Amaral, acredito eu, se não me falhe a sempre reles memória, com uma turma de quarenta amigos.
Era uma das minhas intermináveis despedidas. Àquela noite Lulu Santos cantava e a festa foi tão maravilhosa que saímos da boate já cinco horas da manhã, compramos uns pães, sucos e queijos numa padaria ali no Baixo Leblon e, de volta para a Lagoa Rodrigo de Freitas, tomamos o café mais maravilhoso que um ser humano pode experimentar.
Kau, Leonardo, Duk, Fred, Paulo, Túlio, Roberto... estávamos todos, numa farra inacreditável de boa.
Sim, isso nada tem a ver tanto assim com meu sonho, de um dia ter um carrão e ouvir músicas nas alturas.
Era só para dizer que foi naquela noite que eu, decididamente, fiz do Lulu um dos donos da trilha sonora da minha vida.
Mas, enfim... anos se passaram.
Hoje eu atravessando a Prudente, no sinal do cruzamento com a Alberto Maranhão, esqueci da vida.
Cantei todas e alto. Já rouco, minha voz sumiu. Mas, sei lá, tão feliz estava que... cantei mais alto ainda.
De repente esqueci do mundo mais uma vez e o sinal fechou.
O frentista, que me conhece de tanto abastecer ali, bateu com a mão no vidro do carona e eu tomei um quase susto. Foi quando dei conta de que as buzinas – todas, do mundo – eram para mim.
É que fazia, disse-me o frentista, quase cinco minutos que estava ali, surtando.
E o sinal abriu e fechou duas vezes e... minha felicidade não viu. Nem ouviu – é... tenho um grave defeito de só ouvir o que quero, vocês sabem!
De repente um senhor passa por mim, cantando pneus e me esculhambando.
- Está doido, filho da puta?
- Eu, zen, ri. Alto, claro.
Louco até vai. Sou mesmo! Louco de felicidade, de vida, viço.
Mas filho da puta?!
Quando o carro passou por mim, li num desses adesivos que se coloca nos automóveis.
- Dirigido por mim, guiado por Deus.
Não acreditei.
Porque quem é guiado por Deus... ouve som alto, canta, não buzina... e ainda é o homem mais feliz do mundo!!!

Tudo junto e misturado

21/11/2010 às 18h56

Ando com uma preguiça louca.
Falta de tempo, fim de ano já gritando, tanta coisa para dividir com vocês... e acabo sumindo por uns tempos. Preciso de tempos, as vezes.
Vou falar rapidinho, hoje.
Sobre vida, que é o que, pretensioso que sou, entendo, apesar da não tão pouca idade assim.
Uma amiga que escreve de Brasília – e que nunca vi, mas quero tanto bem.
E escreve coisas tão lindas, tão encantadoras que, cada e-mail seu me faz parar e rir. E rir pro mundo, agradecer a Deus por ela existir.
“Vou a Missa, rezarei por você” – existe presente melhor de Deus do que amizades que chegam e rezam pra gente?
E uma linda que se casou em Mossoró, depois de tantas injustiças impostas pela vida, tantas maldades – e a volta por cima graças a força do amor.
E um amigo que tenho no Rio, desde os dez anos de idade que liga e diz... Saboya, volta para o seu Rio de Janeiro. Vem fazer sucesso aqui, vamos sair juntos, juntar nossas famílias... Como faz falta sua amizade avassaladora!
E...
Eu ando um caco, doente de, acreditem, sucesso!
Minha gente, até o final do mês serão 106 festas apenas em 2010. Sabe o que significa isso?
É correria demais! E cada uma diferente da outra, cada um mais linda do que a outra...
E ainda viver assim...
É que morar numa vitrine nos 365 dias do ano não é tarefa tão fácil assim, apesar de saber administrar isso como ninguém no mundo.
Viver para ser visto e ser visto como “um meio de vida” é tarefa nada fácil. Pedradas devem ser muitas. Devem, porque nenhuma me chega, me alcança, me lasca a cabeça sempre nas nuvens e, fazer o que?, com Cera importada.
Esse é um dos segredos da minha vida.
NUNCA canalizo minha energia, boa até quando “padeço”, com a energia ruim de seu ninguém!
E também não leio NINGUÉM que não gosto, que não me quer bem e está, sempre, de olho no meu sucesso.
Gente assim, nunca existiu para mim.
E tem mais... NUNCA perco tempo falando de seu ninguém. O tempo é precioso, Deus tudo ouve – então minhas horas são divididas em boas energias. SEMPRE!
E sigo.
Ando mole, voz embargada, num cansaço sem fim.
Mas vai passar. Claro que sim!
É que trabalho muito, corro muito e esse Portal, com toda força d’alma, me arranca as entranhas diariamente.
Escrever, aqui, cerca de 80 notícias por dia é outro alvoroço que vivo.
Hoje recebi um e-mail. Sobre a roda gigante que a vida é.
Veio, vê que fofo, de uma cidade chamada Equador, cravada no interiozão do Rio Grande.
“Querido Chrystian,
Desculpe chamar você de querido. Mas na verdade gostaria de chamá-lo de meu amor. Sim, você é um grande amor. (...) Longe das vaidades da vida desde que meu marido
faleceu, seis anos atrás, é com você que me pego para ser feliz diariamente.
Suas colunas são, todas, um alento para mim, que vivo nessa fazenda, herança dos meus pais e sogros, paraíso apesar de solitário.
(...)
Com você frequento festas, vou a mundos distantes e visito outros países. Veslumbro belíssimas decorações, aprendo a cozinhar, a ‘Comer Zen’, o que está na moda.
Você me faz uma pessoa melhor mesmo sem sequer saber quem sou.
E para isso eu te agradeço e, todos os dias, menino, rezo por você, sua família e pelos dons que Deus, sempre maravilhoso, lhe deu”.

Aí... chorei. Muito.
Vi a vida dessa senhora, viúva com seis filhos aos 49 anos de idade... e lutando. De repente tudo muda na vida da gente. E tudo vira saudade ou vento, brisa.
Daí a importância de se viver em paz, de se pregar o amor...
E de não dar o menor cabimento para gentes menores, que fofoca,m, invejam, pregam ruindades, fazem fofocas...
Vou amanhecer melhor todos os dias... por esse e-mail lindo, flor dessa Maria.
E por estar aqui, dividindo com vocês dia a dia, a certeza de que vida, sempre, por mais percalços que tenha... sempre...
Valerá a pena.
Obrigado, caro leitor, por grudar seu coração no meu!!

Triste história para contar – ou... o Poder que o álcool tem

02/11/2010 às 12h10

Nunca gostei de beber. Nem socialmente. Bebo um espumante com suco de laranja, ou de pêssego, no máximo, e pronto.
E se Debussy tocar à minha volta, goles a mais eu dou.
É, na vida real tenho lá meus exageros – excessos sempre comedidos.
Adoro beber essa mistura, sempre muito mais suco do que espumas e, para ter menos classe, cantam todos a minha volta, uma pedrinha de gelo.
- Como?! Misturar um espumante tão bom com gelo???!!!
Em muitas festas minhas, coloco guaraná na taça de espumante; assim, poucos me perturbam para um gole.
Mas beber, nunca.
As vezes até arrisco uma caipirinha fraca feito caldo de arroz. Mas quando vejo uma Coca-Cola na minha frente, tinindo de gelada, me jogo – e jogo lá longe o tal brinde de cachaça e limão.
Nunca bebi cerveja, sequer o gosto que whisky tem, eu sei.
Outro dia falava com uma amiga, que adoro, que ela evitasse seus porres homéricos nos finais de semana.
Que no lugar de beber fosse bailar com a família, fosse jogar água sobre seu lindo jardim, um cineminha, outras cirandas.
É que o álcool, acreditem, é um dos maiores parceiros daquele, nome jamais aqui, antônimo de Deus.
O álcool nos faz outras pessoas, destrói vidas, enceras caminhos e apaga luzes.
O álcoll destrói, corrói por dentro, amedronta a alma.
E mata.
Ah, como mata...
Soube hoje, Hugo, nosso anjo e motorista, me contou. Fiquei tão triste que resolvi escrever.
Sobre dois irmãos. Davam-se bem, a vida os levava.
Eram irmãos de pai e mãe, vidas inteiras pela frente.
Bêbados, discutiram por nada.
E um deu um tiro no outro. Dois tiros.
Não bastasse, ligou para a sofrida mulher, sua cunhada, mãe dos seus sobrinhos e comunicou... “Venha buscar seu marido, eu acabei de matá ele”.
A história me doeu a alma.
Por causa do álcool, duas famílias mortas. E tantas lágrimas derramadas.
E como tantas vezes, tantas histórias repetidas, tantas mortes à espreita da vida, o álcool como testemunha.
Não que minha amiga vá matar alguém.
Nem que outros irmãos se matem – a si e aos outros.
Mas o álcool tem esse poder.
De não levar ninguém para frente.
De sofridão.
Trôpego, estorvos, solidão.
O álcool, acreditem, não tem coração.
Nem olhos, irmãos.

Cuenca, terra encantada

20/10/2010 às 07h14





















Nossa história de amor começa assim.
Quando estivemos na Europa em fevereiro desse ano, tomamos uma água numa linda garrafa azul, sei lá onde, na Espanha.
Garrafa linda, paixão a primeira vista, trouxe-a para o Brasil.
Sem sequer saber de onde era, a garrafa ficou em minha casa, virou um vazinho para uma única flor, foi ficando, se transformou em “relíquia” de viagem.
Sonhava um dia, quem sabe, beber aquela água novamente.
E bebi.
Foi em Cuenca, cidade que Keity escolheu para estudar ano que vem e que se transformou, para nós dois, num dos destinos mais encantadores que conhecemos na vida.
Coincidências do mundo, a água, Solan de Cabras, chegou à nossa mesa naquela friíssima noite de 6 de outubro, no Restaurante, deslumbrante, Maison Colgadas – cravado no alto de um despenhadeiro, numa das paisagens mais lindas que meu coração já alcançou.
Sobre a água de garrafinha azul... tem como única fonte, no Balneario y Aguas de Solán... que fica exatamente em Cuenca.
Ah, linda Cuenca!
Cravada sobre despenhadeiros, a velha cidade é um deslumbramento.
Encanta pelo magistral círculo secular de residências, castelos, ruelas e paisagens, erguidas lá pelo Século VIII.
Cuenca é a cidade espanhola que corresponde à capital da província com o mesmo nome e está incluída na Comunidade Autónoma de Castilha-La Mancha – ao seu redor, muitas belezas naturais.
Com 50 mil habitantes apenas, a cidade divide-se em velha e antiga, além de bosques e florestas encantadores que, olhar a olhar... emocionam.
Declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 1996, a cidade foi fundada pelos Romanos e então denominada "Conca"; foi posteriormente ocupada pelos Árabes e em 1177 conquistada por Alfonso III.
Na parte antiga as ruas são tortuosas, é uma aventura passar de automóvel por entre seus caminhos antiquíssimos e suas casas apresentam uma beleza sem igual. São muito antigas, feitas de pedra e madeira, com janelas sempre floridas.
As famosas Casas Colgadas são resultado do acentuado declive do terreno e são a principal atração turística no vale do Huécar.
Os monumentos mais importantes da cidade são a catedral, construída em estilo gótico; as igrejas de San Miguel e de San Nicolás; o Convento de San Pablo; o castelo, que é uma fortaleza árabe do século X; o edifício do Ayuntamiento, de estilo barroco; o Palácio Episcopal e a Torre de Mangana.
Sobre os museus, os mais significativos são o de Cuenca e o de Arte Abstrata – mas são 11, ao todo e todos, sem favor nenhum... são uma maravilha.
Viajar é isso: cultura, condões e amores a flor da pele.
Cuenca, cidade temperamental, tem um senão que, para mim, não abalou-me em nada. A temperatura oscila vinte graus num único dia. tem campos belíssimos de girassóis. Um perder de vista que nos faz extasiar a viv’alma.
Tem, para quem gosta de arte, ceramistas maravilhosos e ateliês, na Velha Cidade, que trazem arte como caminho dos mais belos desta vida.
Chamada de Cidade Encantada, Cuenca tem florestas intermináveis, com rochas imensas, desfiladeiros que amedrontam pela grandiosidade e pela certeza de que... apesar de tantas dores, os desamores dos homens... Deus existe.
E tem uma casa linda em Cuenca.
Onde mora, sonha, suspira. 

As fotos são de Chrystian de Saboya

O amor anda de cadeiras de rodas. E é cego

07/10/2010 às 20h24

Estávamos, eu, Keity e Valentina, as margens do Parque San Julián, no Centro de Cuenca, aqui na Espanha, onde encantados estamos faz uma semana, quando deparei-me com o mais encantador dos casais de velhinhos que já encontrei na vida.
Acabávamos de entrar numa sorveteria.
Fazia dez graus, pássaros sobre nossas vans cabeças num céu azulzinho, o trânsito tranquilo dessa que é, para mim e para Keity, uma das nossas viagens mais encantadoras...
E os dois velinhos, mais de oitenta anos, certamente que sim, trocando juras de amor eterno entre sorvetes e tenros corações.
Ela não enxergava, usava cadeira de rodas.
Era gordinha, cabeça branca, cheia de cachinhos, um vestido marrom, um cachecol Hermés... e tinha o mais feliz dos semblantes já avistados.
Ele, mãos trôpegas e voz cansadinha, explicava ao seu ouvido, como um sussurro apaixonado, que sorvete era tal.
Riam, ela colocava as mãos na boca, como se ouvisse indecências; ele seguia absoluto dono da história.
Pedi um sorvete de Amora; Keity tomou Crema Reno; Valentina, como se entendesse aquela linda história de amor, nos dada de presente por Deus, virou seu carrinho e, como num rompante, fitou os dois velhinhos apaixonados.
E de cara apaixonou-se pelos dois também. O amor tem, entre outros dons, o poder do fascínio, a contaminação do encantamento.
Valentina ficou a sorrir, enquanto ouvia os “olás” mais graciosos do mundo, ditos pelos sempre rudes espanhóis.
Meu sorvete perdeu a graça, ouvi mais nada a minha volta não.
Os dois continuavam a trocar amor.
Ele levantava-se, oferecia-lhe outros sabores, sussurrava ao seu ouvido, sentava ao seu lado... e repetia tudo novamente.
Quis “meu fim” assim.
De cadeira de rodas, cego... não importa, juro que não. Ter um amor como o que presenciamos, como o que rego dia a dia junto a Keity, já será suficiente.
Cuenca vai se desenhando assim para nós três. Uma ciudad erguida no Sáculo XVIV, entre castelos, plazas e monumentos deslumbrantes sobre as mais belas rochas que Deus colocou sobre a Terra. A cidade é inteira assim, sobre rochas, despenhadeiros, imensos rochedos.
As Casas Colgadas, como são chamadas as residências, uma infinidade na cidade, ganham esse nome por serem “penduradas” sobre as rochas de Deus.
São caminhos nunca antes imagináveis, visões deslumbrantes, paisagens que tocam a alma...
Como os dois velhinhos, Cuenca já é, para mim, Keity e Valentina... inesquecível. 

Chrystian
De Cuenca, Espanha